Quais as causas da inflação dos Estados Unidos?

A retomada da atividade econômica observada desde a redução gradual das restrições impostas pela Covid-19 tem resultado, dentre outras coisas, em um movimento de aumento de preços generalizado, processo sentido em praticamente todas as regiões do planeta. No caso dos Estados Unidos, a justificativa inicial foi a forte demanda por insumos e mão de obra para recompor a produção nos níveis pré-pandemia, que não foi correspondida de imediato pelo lado da oferta e fez com que a escassez resultante gerasse problemas para diversos setores.

Contudo, é necessário entender se a realidade atual corresponde a este diagnóstico inicial e é de fato responsável por causar esta conjuntura inédita se considerado o histórico recente do país. Neste sentido, os dados dos últimos meses mostram que a inflação dos Estados Unidos, que inicialmente atingia o setor de bens de consumo com mais força e acabou sendo compartilhada com o de serviços, tem nos grupos de energia e alimentos seus principais motores de crescimento.

O QUE DIZEM OS DADOS?

Uma análise individual dos principais indicadores de inflação utilizados no país pode comprovar a hipótese aqui levantada. A começar pelo PCE e PCE excluindo os grupos de alimentação e energia, que são os indicadores publicados pela Bureau of Economic Analysis, percebe-se que o resultado de fevereiro mostra uma elevação nos níveis de preço de 6,4% no acumulado de 12 meses, reflexo das variações positivas de preço tanto de bens quanto dos serviços. Os preços do grupo de energia foram o principal destaque, com alta de 25,7%, enquanto o grupo de alimentos teve variação de 8%. No segundo índice, que exclui ambos, a variação foi mais amena, com um incremento de 5,4% frente ao resultado de fevereiro de 2021.

Já o CPI-U, que possui informações referentes ao mês de março, registrou alta de 1,2% MoM em seu índice ajustado, resultado superior ao de fevereiro, quando apresentou crescimento de 0,8%. No acumulado de 12 meses, o indicador apresenta uma expansão de 8,5%, maior resultado observado para a série desde 1981. Os principais causadores destes resultados são os grupos de alimentos e combustíveis, sendo que no caso do último, a gasolina apresentou crescimento de 18,3%, representando metade do crescimento do indicador no período. Com relação ao grupo de alimentos, as principais elevações vieram dos itens de alimentação na residência, que já apresenta uma elevação de 10% no acumulado em 12 meses. Caso ambos os grupos fossem retirados do cálculo do CPI-U, o resultado seria um aumento muito mais brando, ficando no patamar de 0,5% MoM.

Uma inferência interessante pode ser feita sobre a participação do mercado de trabalho na situação atual da inflação a partir da comparação de dois índices distintos. O primeiro é o índice de preços aos produtores (Producer Price Index), que aponta um aumento generalizado nas categorias que são cobertas pelo indicador, com os preços dos bens finais crescendo 1,4% em março, maior resultado do ano, superando os 0,9% de fevereiro e 1,2% de janeiro. Já os bens processados apresentaram elevação de 2,1% no mês, enquanto os não processados caíram 1,4%, bens intermediários e serviços tiveram aumento de, respectivamente, 0,8% e 0,6%. 

Movimento contrário apresentou o custo do trabalho, onde a média do salarial real para o conjunto dos trabalhadores declinou 0,8% em março frente ao resultado de fevereiro, e quando comparado ao resultado de 2021, a queda foi ainda mais acentuada, ficando em 2,7%. Isto pode indicar que o aquecimento no mercado de trabalho, tido inicialmente como uma das premissas para as elevações de preço no ano, pode estar perdendo relevância como variável explicativa, jogando o foco para as variações em alimentos/insumos e energia.

POSSÍVEIS DESDOBRAMENTOS

A escalada inflacionária pode acabar prejudicando negativamente o nível de atividade econômica, como mostra a pesquisa referente ao mês de março do PMI, realizada pela empresa IHS Markit, que mostrou que apesar do setor de serviços ter apresentado bom desempenho, fechando o período em 58 pontos, maior nível desde junho de 2021 e superior ao resultado de fevereiro, quando marcou 56,5 pontos, a escalada dos preços pode acabar prejudicando as boas perspectivas do setor, uma vez que foi responsável por derrubar a confiança dos empresários para o menor nível nos últimos cinco meses. O mercado de trabalho e possíveis novos distúrbios na oferta de matérias-primas também são apontados como responsáveis por este resultado. Em suma, fica claro que o processo inflacionário descrito responde em especial ao encarecimento de insumos resultante da valorização das commodities no mercado internacional, que acabou elevando o preço dos produtos que integram os grupos responsáveis pela maior parte da explicação acerca das alterações no indicador, com indícios de que o mercado de trabalho não será uma fonte adicional de problema, tendo em vista o alívio causado pela queda nos salários dos trabalhadores.

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