Recessão nos Estados Unidos: hipótese ou realidade inevitável?

Na última quinta-feira, 29/09, foi divulgado o resultado do PIB do segundo trimestre dos Estados Unidos, que apontou para uma retração de 0,6% da economia norte-americana entre meses de abril e junho.

O resultado seguiu a mesma trajetória apresentada pelo PIB do primeiro trimestre, cujo recuo foi de 1%. Fatores específicos como a deterioração do setor externo, a redução dos gastos públicos e a redução do nível de investimento em setores específicos responderam pela maior parte destes dois resultados ruins.

Contudo, mesmo neste aparentemente recessivo, as projeções ainda não apontam para uma recessão nos Estados Unidos em 2022.

Na última revisão de suas projeções, o FED rebaixou sua expectativa de crescimento para o ano, que saiu de 1,7% para apenas 0,2%, sendo que, apesar de significativamente mais pessimista, a atualização mostra que a autoridade monetária do país ainda acredita na obtenção de algum nível de crescimento de sua economia ao fim de dezembro.

Uma variável chave neste sentido é o consumo das famílias, que se por um lado exerce papel central na explicação da inflação que vem causando perturbações para a política econômica atual do país, se mostra também como o principal, e talvez único, eixo dinâmico de crescimento para o ano atual.

Desta forma, vale analisar com mais cuidado o comportamento do consumo das famílias do país até aqui e traçar algumas perspectivas para os meses finais. Antes disso, façamos uma breve recapitulação do papel do consumo no cálculo do PIB.

Participação do consumo no cálculo do PIB

A influência direta do consumo é percebida quando fazemos o cálculo do PIB pela chamada ótica da demanda, ou seja, a ótica onde é somado o consumo por parte dos principais agentes que integram a esfera econômica do país. São contabilizados neste cálculo o consumo das famílias, o investimento privado, os gastos públicos e as exportações líquidas, que consistem na diferença entre as exportações e importações.

A soma de consumo das famílias e dos investimentos privados é também conhecida como consumo privado, uma vez que dá a magnitude da demanda por parte dos agentes individuais e firmas de uma determinada economia.

Nos debruçaremos especificamente sobre o consumo das famílias neste artigo. As exportações líquidas, por sua vez, são responsáveis por mensurar o nível de demanda dos agentes internacionais, enquanto os gastos públicos cumprem a função sugerida pelo próprio nome. O consumo também possui efeitos indiretos no PIB pela ótica da oferta, porém, trataremos deste tema em outro momento.

O que dizem os dados até aqui?

Para uma análise mais minuciosa, nos concentraremos nos dados mais recentes, que por sinal dão uma dimensão bem significativa da situação atual do nível de consumo.

Em agosto, o gasto das famílias com bens e serviços sofreu desaceleração significativa, apresentando crescimento de apenas 0,1% em termos reais, o que se torna ainda mais preocupante se considerarmos que o crescimento dos gastos no terceiro trimestre foi de apenas 1%. Vale lembrar aqui que estamos tratando de uma das poucas variáveis do PIB com capacidade de apresentar expansão em 2022.

Até aqui, a queda nos gastos está mais relacionada com o efeito negativo da inflação do que com a perspectiva ruim acerca dos rumos da economia, algo que será tratado na seção seguinte.

O PCE, indicador de inflação de gastos pessoais sobre o qual já escrevi em outro artigo aqui do Blog, teve crescimento de 0,3%, com seu núcleo avançando em 0,6%. Para efeito de comparação, a renda pessoal dos agentes teve alta de 0,3%, enquanto os gastos pessoais avançaram 0,4%.

A proximidade dos valores indica que os preços mais elevados podem estar puxando cada vez mais para baixo o nível de consumo das famílias.

Esta hipótese pode ser mais bem fundamentada ao analisarmos o desempenho dos gastos sob a ótica das principais modalidades de consumo, sendo elas: o gasto com bens de consumo duráveis, não duráveis e serviços.

Em agosto, os gastos com o primeiro grupo registraram queda de 0,4% em termos reais, com destaque para a queda no grupo de móveis e eletrodomésticos (-0,9%).

No caso dos bens não duráveis, a queda foi de 0,84%, reflexo da redução dos gastos com alimentação e vestuário por parte dos cidadãos.

O componente de vestuário, inclusive, merece atenção especial, uma vez que em tempos mais difíceis no campo econômico, este tende a ser o dispêndio cortado primeiro pelas pessoas, em função de sua superficialidade.

Por fim, destaque para os serviços, que apresentaram crescimento e 0,85%. Este indicador, porém, deve ser analisado cuidadosamente, uma vez que “sofre” com o efeito de dois fatores conjunturais que não devem se sustentar por muito tempo.

O primeiro deles consiste na retomada da demanda por serviços após o fim do período mais grave da pandemia, com as pessoas voltando a gastar mais em atividades como bares, restaurantes, viagens e outros serviços mais, de maneira que este foi o principal efeito impulsionador do crescimento dos serviços desde o ano passado.

Somado a isto existe também uma maior demanda por serviços em função do verão no hemisfério norte, quando as pessoas viajam mais e se reúnem mais fora de casa, proporcionando um segundo impacto positivo em termos de consumo das famílias.

A perda de tração da demanda pós pandemia e a chegada da fase mais fria do ano devem agir como contrapeso no que diz respeito à demanda por itens deste segmento, fazendo com que o mesmo passe a desacelerar nos próximos períodos.

Perspectivas para o fim do ano

A principal expectativa para os meses remanescentes do ano é que o consumo das famílias sofra uma leve deterioração.

Este movimento possui correlação elevada com a política monetária restritiva que vem sendo imposta pelo FED, de maneira que o resultado esperado desta combinação é um encarecimento do crédito em níveis suficientes para reduzir a tomada de recursos por parte dos consumidores para consumo.

Até mesmo um nível de investimentos mais ameno, que se traduzirá em menor nível de emprego e consequentemente menor nível de gastos. Estes dois vetores possuem forte impacto no controle da inflação, principal objetivo do FED atualmente.

Entretanto, vale destacar que entre o aumento dos juros por parte da autoridade monetária e o encarecimento do crédito “na ponta”, existe um intervalo temporal significativo.

No caso dos Estados Unidos, estima-se que este processo dure entre 7 e 10 meses. Logo, considerando que o primeiro reajuste nos juros dos Estados Unidos este ano foi dado em maio, e considerando o prazo mínimo de 7 meses para que o mesmo se faça sentir na economia real, só seria possível verificar o efeito da política monetária a partir de dezembro.

Oque não nos gera evidência suficiente para garantir que a política monetária será diretamente responsável por reduzir o nível de consumo das famílias.

Ela, no entanto, possui um efeito indireto importante e que será responsável por ajudar a reduzir os gastos dos agentes.

À medida que avança, a alta nos juros começa a gerar um nível de receio cada vez mais elevado nas famílias e indivíduos, que temem que uma recessão econômica se consolide e que isto possa acabar custando seus respectivos empregos no final das contas.

O sentimento mais pessimista em relação ao futuro faz com que as pessoas gastem menos, optando por o que em economia se convencionou chamar de “entesouramento”, ou seja, construção de poupança em detrimento ao consumo no momento presente, o que atinge já no curto prazo o resultado do consumo em termos de crescimento.

Apesar de ser algo extremamente subjetivo, existem alguns indicadores que buscam mensurar a variação das expectativas dos agentes com relação ao futuro.

Neste sentido, o indicador de sentimento econômico (ESI na sigla em inglês) calculado pela Universidade de Michigan é considerado um dos melhores parâmetros para acompanhamento deste tipo de informação. O indicador é um número índice que varia entre zero e cem, com resultados acima dos cinquenta pontos sendo considerados acima da média histórica, o que é positivo, e resultados abaixo deste patamar devendo ser entendidos como negativos.

O ESI iniciou o ano em 67,2 pontos, tendo apresentado forte deterioração nos seis primeiros meses, quando fechou junho em exatos 50 pontos.

De lá até aqui, o indicador apresentou crescimento em todos os meses, fechando setembro em 58,6 pontos, resultado que, apesar de positivo, tendo em vista que saiu de uma situação muito ruim, não deve ser considerado algo sequer satisfatório, tendo em vista que, para efeito de comparação, em setembro do ano passado o indicador fechou em 72,8, e no mesmo mês de 2020, com todos os efeitos negativos causados pela pandemia, o ESI foi de 80,4 pontos.

Logo, existe um forte indicativo que, embora superior ao primeiro trimestre deste ano, as expectativas dos consumidores com relação ao futuro sugiram um nível de gastos reduzido por parte dos consumidores, que ainda enfrentarão um longo período de política monetária restritiva e um FED extremamente combativo no que diz respeito à retomada do nível de preços ao patamar de 2%, o que deve ter implicações severas para o mercado de trabalho e fazer com que, de fato, o PIB caminhe para o terreno recessivo, que caso não seja alcançado no último trimestre deste ano, seja alcançado nos três primeiros meses de 2023.

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