O papel da balança comercial e sua relevância para o câmbio

Balança comercial é um termo mais presente do que imaginamos. Eventualmente, nos deparamos com publicações em mídias impressas e digitais apresentando dados que buscam descrever o desempenho do comércio exterior brasileiro. Tais números fazem referência aos volumes de receita gerados a partir das vendas e compras feitas pelo país junto ao resto do mundo.  Sendo normalmente divulgado a relevância destes movimentos para o câmbio, uma vez que as transações aqui registradas são responsáveis por trazer, ou enviar, significativas quantidades de dólares.

Contudo, qual o impacto disto para a economia real? Quais as implicações de um resultado positivo ou negativo? Como o câmbio se modifica a partir do comércio externo? Estas perguntas e algumas outras que podem vir potencialmente a cabeça do leitor serão respondidas no decorrer deste texto!

Significado e importância da balança comercial

A balança comercial integra as chamadas “transações correntes”, conjunto de contas formado com a adição da balança de serviços, rendas primárias e rendas secundárias. No caso da balança comercial, são contabilizados resultados referentes ao comércio exterior do país, resumidos através das exportações, que indicam o montante de vendas feitas em determinado período, e das importações, que apresentam o que foi adquirido pelo país junto ao resto do mundo. Ambos são expressos tanto em unidades monetárias, onde por padrão se usa o dólar (USD) como referência, e em volume, medido em toneladas.

Outros importantes indicadores derivam a partir dos dois apresentados acima, sendo eles: a corrente de comércio e o saldo comercial.

Corrente de comércio

Tem como atribuição apresentar o volume de recursos movimentados nas transações do país em determinado período, consistindo basicamente na soma entre exportações e importações.

Saldo comercial

Indicador de extrema relevância para as contas externas do país, é a diferença entre as exportações e importações ao longo do tempo. Sua importância se dá na medida em que, a partir deste número é possível analisar com mais precisão a performance da balança comercial como um todo.

Superávit

Sendo assim, nos casos em que o saldo comercial é positivo, gerando o chamado superávit, houve um influxo de divisas. Expressão utilizada para apontar que a entrada de dólares através das exportações foi maior que a saída em decorrência das importações.

Déficit

Enquanto um saldo negativo, que recebe o nome de déficit, indica uma saída de divisas, que ocorre em função da saída de moeda estrangeira em proporção superior às entradas.

O comportamento da balança comercial brasileira em 2022

O ano de 2022 tem sido marcado por ótimos resultados no que diz respeito à balança comercial do Brasil. À exceção do mês de janeiro, quando registrou déficit de US$ 66,30 milhões, valor relativamente baixo para as magnitudes observadas nesta conta, os demais meses apresentaram ganhos robustos, com destaque para o mês de abril, quando acumulou US$ 8,08 bilhões de superávit, maior saldo desde junho de 2021. Resultado da diferença entre US$ 28,84 bilhões de exportações contra US$ 20,75 bilhões em exportações. No acumulado anual, o país está com saldo de US$ 23,29 bilhões de superávit, alcançado através de US$ 121 bilhões em exportações e US$ 98,14 bilhões de importações.

Influência do superávit no câmbio

É uma inferência comumente vista quando se trata de setor externo, onde o comércio internacional é responsável por trazer dólares para a economia local e possibilita um processo de manutenção ou até mesmo de apreciação cambial.

Esta afirmação é parcialmente verdadeira, uma vez que outras variáveis também devem ser levadas em consideração para que tal hipótese se sustente.

Primeiramente, como descrito no início do texto, a balança comercial é apenas uma das contas que integram o balanço de pagamentos do país. Analisando os dados históricos, é possível verificar que dentro do grupo de transações correntes, tanto a balança de serviços quanto as Rendas Primárias costumam apresentar comportamento deficitário, isto acontece em função de características estruturais da economia brasileira.

Ou seja, características da maneira como nossa economia está estruturada, sendo que neste caso isto consiste em considerar que nossa estrutura de exportação depende da contratação de terceiros para o transporte, enquanto nosso setor produtivo é formado em grande parte por capitais internacionais, de maneira que os lucros auferidos pelas empresas são usualmente remetidos a suas matrizes no exterior.

O impacto destes fatores se dá na medida em que a conta de serviços se torna deficitária por conta da contratação de meios de transporte para os produtos a serem exportados e aos gastos brasileiros em viagens internacionais, enquanto as rendas primárias acabam registrando o movimento de saída de divisas em decorrência das remessas de lucro enviadas por empresas estrangeiras para suas matrizes, além da renda de investimentos que também sai do país em direção à outras localidades. Por sua vez, a conta de rendas secundárias, onde são registrados os envios e recebimentos de moeda estrangeira por agentes individuais, possui comportamento difuso ao longo do tempo, porém, suas magnitudes são baixas demais para afetar a trajetória do resultado das Transações Correntes.

Compreendendo o resultado da balança comercial

Tendo em vista estas considerações, o resultado da balança comercial pode ser melhor entendido. Quando esta conta apresenta superávit, antes de afirmar o impacto que isto terá no câmbio, é necessário olhar para a magnitude do resultado, de maneira que mesmo em um cenário de superávit comercial, a contribuição só será efetiva caso este tenha sido superior ao déficit proveniente da somatória das demais contas. Caso ele seja inferior, as Transações Correntes acabarão sendo deficitárias, abrindo a possibilidade para uma depreciação cambial. Mesmo a depreciação cambial é incerta neste cenário, visto que tal resultado só será passível a partir da incorporação do resultado da chamada Conta Capital-Financeira, responsável pela contabilização do volume de recursos provenientes dos investimentos no país, tanto na esfera produtiva quanto na financeira. Faremos uma análise desta conta em um próximo texto aqui no blog. Portanto, se considerarmos o câmbio como nossa variável de interesse, é importante ficar atento para o fato de que, apesar da grande relevância que possui, o resultado isolado da balança comercial não é indicativo suficiente para justificar movimentos no câmbio, especialmente aqueles de maior magnitude.

Para mais conteúdos educacionais como este, acesse o blog da CM Capital.

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