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Confira o Cenário Macroeconômico do mês de Fevereiro, pelo Departamento Econômico da CM Capital.
CARLA ARGENTA •
03 mar 2026 •
7 min de leitura
Atualizado em 21 de maio de 2026 por Natalia Rodrigues
O mês de fevereiro foi marcado por eventos geopolíticos e pela renovação de tensões no âmbito da política comercial dos Estados Unidos, na ausência de decisão de política monetária por lá. Em termos de indicadores macroeconômicos, o mês viu a manutenção de um cenário de alerta para o nível de preços, com o CPI e o PCE indicando inflação persistentemente acima da meta. Além disso, a criação de postos de trabalho surpreendeu positivamente, podendo sugerir reaquecimento do mercado de trabalho. Em conjunto, os dados afastaram apostas em torno de um corte de juros na próxima reunião do Fed, com
deslocamento da expectativa majoritária de retomada da flexibilização apenas em abril.
O CPI de janeiro nos EUA veio ligeiramente abaixo das expectativas de mercado no mês, atingindo 2,4% na métrica interanual, valor ainda acima da meta de 2%. No entanto, o foco recai sobre o PCE, indicador de inflação preferido pelo Fed, que surpreendeu negativamente e ficou ainda mais distante da meta: na ótica anual, o índice avançou 2,9%. Os resultados levaram a uma postura mais cautelosa por parte da autoridade monetária, e se somaram a uma surpresa positiva no Payroll de janeiro, mudando a aposta majoritária do próximo encontro do Fomc para manutenção dos juros. É válido ressaltar, no entanto, que o acumulado de vagas e composição dos novos postos de trabalho confirma a dinâmica de moderação do mercado de trabalho, sustentados pela taxa desemprego em 4,3% – acima da meta de 4% – e salários em acomodação.
No campo geopolítico, o aumento de tensões entre os EUA e o Irã, com receios de uma escalada militar, transbordaram para o preço do petróleo, que atingiu o maior patamar dos últimos 6 meses. Com a
continuidade de negociações previstas para o início do próximo mês, esgotamento da perspectiva de
resolução das tensões pela via da negociação deixaram mercados em posição cautelosa.
Somou-se ao movimento descrito acima a decisão da Suprema Corte dos EUA que determinou a suspensão das tarifas impostas por Donald Trump por meio da IEEPA – International Emergency Economic Powers Act – , removendo sobretaxas impostas pelo presidente sobre diversos setores e países. Em face ao ocorrido, Trump já implementou tarifa global de 10% sobre todas as importações do país, com isenções específicas.
O movimento implicou na redução da alíquota efetiva cobrada de alguns países e setores, o que transbordou para deterioração do dólar e maior diversificação do fluxo de capitais a outros países.
Na China, os mercados permaneceram fechados durante parte do mês em razão do Ano Novo Lunar, e a
retomada das negociações repercutiu sobretudo nos preços de metais. Em termos de política monetária, o Banco Popular da China (PBoC) manteve as principais taxas de juros inalteradas, dando continuidade à
dinâmica perseguida nas últimas reuniões. A decisão ocorre em um contexto de atividade abaixo do
potencial e inflação persistentemente reduzida, refletindo a demanda interna contida, com destaque
especial para o setor imobiliário. No entanto, apesar do espaço para estímulos monetários, o PBoC tem
optado por atuação cautelosa diante de riscos cambiais e financeiros.
O aumento da incerteza geopolítica e comercial no cenário global elevou de forma generalizada a aversão ao risco, mas teve impacto limitado sobre o fluxo de capitais para mercados emergentes. Nesse contexto, o Brasil se destacou: o dólar acumulou desvalorização frente ao real, passando de R$/US$ 5,25 ao fim de janeiro para patamar inferior a R$/US$ 5,15 ao final de fevereiro.
O conjunto de indicadores representativos da conjuntura doméstica segue confirmando o cenário traçado pelo Banco Central, em que pesem algumas surpresas ao longo do mês. Os dados de atividade confirmaram o processo de desaquecimento da economia brasileira. Já os indicadores de nível de preços, não obstante a pressão de movimentos sazonais, permaneceram dentro do limite superior da meta de inflação.
O setor industrial registrou retração de 1,2% em dezembro, resultado marginalmente abaixo da mediana das projeções de mercado, que antecipava queda de 1,1%. O desempenho foi pressionado pela indústria de transformação, que recuou 1,9% na margem — assinalando a quarta queda mensal consecutiva — e
encerrou 2025 com uma retração acumulada de 0,2%. Ademais, o comércio varejista apresentou queda de 0,4% no último mês do ano, abaixo da contração de 0,2% prevista pelos analistas. Não obstante a
desaceleração disseminada entre os segmentos da pesquisa ao longo de 2025, destaca-se a resiliência do
grupo de móveis e eletrodomésticos, cujos resultados indicam uma sustentação da trajetória de
crescimento, a despeito do ciclo econômico.
O setor de serviços também frustrou as expectativas ao recuar 0,4% em dezembro, ante a projeção de -0,1%. Contudo, o segmento revela vigor superior aos demais setores da atividade: após a revisão do dado de novembro para estabilidade, dezembro configurou-se como apenas a segunda queda mensal do volume de serviços ao longo de 2025. Esse comportamento evidencia não apenas resiliência frente ao ciclo econômico, mas um desempenho anual positivo, impulsionado majoritariamente pelo segmento de tecnologia da informação. Este último avançou 5,5% no acumulado de 12 meses, consolidando-se como o principal vetor de alta do índice global de serviços em 2025.
A inflação de janeiro, divulgada em fevereiro, apresentou dinâmica já conhecida, com resultado
marginalmente acima das expectativas do mercado e poucas alterações na composição qualitativa,
reforçando o quadro de arrefecimento gradual. Seu desempenho foi particularmente pressionado pelos
alimentos, que reverteram sazonalidade positiva tardiamente. Ademais, os dados acerca da inflação prévia do mês de fevereiro vieram consideravelmente acima do esperado, pressionados pelos reajustes nas mensalidades escolares, movimento comum nessa época do ano. Contudo, para a condução da política monetária os resultados divulgados ao longo do mês não alteraram a aposta majoritária de corte de 0,5 ponto percentual na Selic na próxima reunião do Copom.
Na esfera fiscal, o mês trouxe a divulgação do Resultado do Governo Central referente a janeiro, com
superávit primário superior a R$ 86 bilhões. A arrecadação federal atingiu patamar recorde no período,
impulsionada sobretudo por tributos incidentes sobre operações financeiras e rendimentos do capital, além da resiliência da atividade, que sustentou rubricas vinculadas aos diferentes setores econômicos. Apesar do resultado positivo no mês, as métricas anuais apontaram crescimento das despesas em ritmo mais acelerado que o das receitas, reforçando a já conhecida necessidade de revisão da estrutura dos gastos obrigatórios. Já no âmbito arrecadatório, permaneceram esforços para ampliação das receitas: o governo elevou as alíquotas sobre produtos importados de países sem acordo comercial com o Brasil, medida com potencial de gerar cerca de R$ 14 bilhões em arrecadação adicional.
No campo da dívida, a DBGG seguiu estável no mês, em 78,7% do PIB, com o pagamento de juros nominais compensando o superávit primário do mês, enquanto a DLSP recuou 0,3 p.p., beneficiada pelo resultado primário e ajustes na dívida externa líquida.
Na política, a retomada dos trabalhos no Congresso e no Judiciário foi marcada por desdobramentos do caso Master, pela CPMI do INSS e por articulações do Executivo com os presidentes da Câmara e do Senado para destravar pautas prioritárias. A PEC da Segurança Pública avançou, liberando a agenda e abrindo espaço para propostas de forte apelo popular, como a gratuidade no transporte público em âmbito nacional e a PEC que extingue a escala 6×1.
No campo eleitoral, PT e PL ampliaram a busca por alianças regionais. O ministro da Fazenda, Fernando
Haddad, indicou disposição para disputar o governo de São Paulo. Já na corrida presidencial, pesquisas
recentes mostram avanço de Flávio Bolsonaro, em empate técnico com Lula no primeiro e no segundo turno.
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