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Entenda o reajuste da Selic em 100 pontos base em agosto

O Banco Central mudou o tom da política monetária mais uma vez. Com isso, a taxa básica de juros passou de 4,25% para 5,25% ao ano. Mais do que a magnitude desse reajuste, o que realmente importa para economia e para o mercado financeiro é a mensagem deixada pela instituição. Entenda o reajuste da Selic em 100 pontos base em agosto.

O Banco Central procura controlar a inflação e fomentar a economia real. Como a inflação de 2021 está fora dos limites do Regime de Metas para a Inflação (RMI), a instituição optou por priorizar a inflação em detrimento do nível de atividade neste momento.

Vale lembrar que existe uma defasagem de aproximadamente 6 meses para que o reajuste da política monetária tenha efeito sobre a economia. Portanto, o que foi definido na reunião do COPOM de agosto só terá efeito sobre a inflação e a atividade de 2022.

O COMUNICADO

Vamos ao comunicado propriamente dito para que você entenda o reajuste da Selic em 100 pontos base em agosto. Embora o reajuste tenha vindo em linha com as expectativas de mercado, a mensagem que o Banco Central passou foi mais dura do que era imaginado inicialmente. Isso porque a instituição mudou sua visão sobre o nível de juros que é condizente com a conversão da inflação para patamares desejáveis em 2022.

A principal mensagem do COPOM foi acerca da necessidade de trazer os juros para acima do patamar neutro, diferentemente do que havia sido mencionado na reunião anterior. Em termos simples, isso significa que o Banco Central irá buscar uma taxa de juros mais elevada do que a inflação.

Hoje, a expectativa de mercado para o IPCA de 2021 é de 6,8% ao final do ano. Como a autoridade monetária entende que a Selic deve ser maior que a inflação, ela tenderá a elevar a Selic sistematicamente nas próximas reuniões, em magnitude semelhante à da última decisão (100 pontos base), até que a taxa de juros básica da economia supere a inflação mensurada pelo IPCA. Neste contexto, supondo que a inflação realmente fique em 6,8% ao final de 2021, a taxa de juros tende a girar acima dos 7,00%.

A INFLAÇÃO

Ocorre que a magnitude da inflação não é a única preocupação do Banco Central. A característica dessa inflação é tão ou mais relevante que o seu patamar. Em 2021, o IPCA foi puxado pelos preços administrados, aqueles cuja inflação é reajustada por contratos pré-definidos e não pelo nível da demanda doméstica. Quando o BCB altera a taxa de juros, ele controla a inflação por meio do aquecimento ou desaquecimento da demanda doméstica. Em suma, o impacto que a política monetária tem sobre os preços administrados é irrisório.

Esse movimento, no entanto, provoca o crescimento da inflação inercial, aquela que é estendida para o próximo por meio do reajuste automático dos contratos. Ou seja, apenas por conta do movimento inflacionário de 2021 já podemos inferir que teremos pressão inflacionária em 2022.

Além disso, nos últimos meses a inflação atrelada ao nível de atividade, ou seja, provocada pelo aquecimento econômico propriamente dito, voltou a subir. Esse movimento pode ser percebido principalmente através da inflação de serviços, que nos últimos 2 meses cresceu em média 0,5%.

Com a atividade mais aquecida, o repasse da inflação vista nos índices de preços ao produtor também é facilitado. Vale lembrar que hoje essa inflação gira em torno dos 45% e o descolamento entre a inflação ao produtor e a inflação ao consumidor é a mais elevada dos últimos 15 anos.

Sob qualquer ótica que se olhe, a inflação está pressionada e tende a seguir preocupando o Banco Central no próximo ano. Diante deste cenário, é natural que a instituição leve a cabo uma política monetária mais dura e busque a redução da inflação prioritariamente. Apenas quando a perspectiva sobre a inflação for alterada é que devemos ver alguma mudança na forma de condução da política monetária, mas esse momento deve demorar a chegar.   

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