A Bolsa Brasileira está barata?

Por André Ximenez / Naor Coelho Jr – Infinity Asset

O preço do principal índice de ações brasileiro é alvo de questionamento de diversos investidores. Desta forma, decidimos nos dedicar a analisar, não de forma qualitativa, mas, entender se nos níveis de preço atuais a nossa bolsa estão “baratos” ou “caros”.

Histórico da Bolsa Brasileira

Voltando alguns meses no tempo, no ápice da pandemia, o Ibovespa registrou no dia 22/03/2020 o fechamento de 63.750 pontos. Neste ano, fechamos o mês de junho a 98.542 pontos. Neste período, houve uma valorização do índice em aproximadamente 54%. Caso consideremos ainda a máxima histórica registrada em junho de 2021 (130.091) essa valorização ultrapassa os 100%.

Análise de Preço/Lucro

Uma das metodologias mais utilizadas pelos investidores para análise do preço das ações é o indicador de Preço/Lucro, ou simplesmente P/L.

O P/L é calculado pela divisão do preço do ativo pelo lucro por ação do ativo (comumente nos últimos 12 meses). Por exemplo: Um ativo comprado a R$ 100,00 e nos últimos 12 meses este ativo distribuiu R$ 10,00 em proventos, o P/L = 10x. Assim, estima-se que o ativo levaria 10 anos para se pagar considerando o preço pago na aquisição do ativo e no pagamento recorrente de proventos de R$10. O P/L médio do Ibovespa é de 12,24x.

Abaixo, o histórico do múltiplo P/L do Ibovespa apresentado na Figura 1.

Figura 1
Fonte: Economatica e Infinity Asset (data-base 30/06/2022)

Hoje em dia…

Atualmente o múltiplo está em um nível inferior (6,7x) ao apresentado pelo Ibovespa em seu pior momento durante a pandemia (8,85x), momento em que o índice amargou uma queda acima de 45% e, agora (fechamento de junho/22), o índice já apresentou uma valorização de 54%. Mesmo diante desse movimento, o múltiplo sinaliza que nos níveis atuais a bolsa está descontada.

O Ibovespa está negociando a um múltiplo P/L próximo aos níveis de 2016 (em seu mínimo 7,07x), época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, período esse em que a bolsa apresentou uma cotação média de 51 mil pontos, chegando a mínima de 45 mil pontos. Guardadas as devidas proporções, o período apresentava um cenário semelhante: taxa de juros elevada (14,25%), inflação de 12 meses acima da meta (em ago/16 estava em +8,97%) e um câmbio instável.

O que podemos entender:

Nossa perspectiva é corroborada pela reportagem publicada no portal Valor Econômico, do dia 07/06/22 a matéria “Recompra de ações avança com bolsa sob pressão”.

O artigo comenta que, até o fechamento do mês de maio, já foram realizados mais de 50 anúncios de recompras ações pelas empresas emissoras, totalizando um valor superior a R$ 72 bilhões, sendo que só no mês de maio foram anunciadas 21 recompras com um valor estimado superior a R$ 17 bilhões. A recompra pode ter diversas finalidades, mas, este movimento sendo realizado simultaneamente por diversas empresas nos trazem as seguintes percepções:

  1. as ações das empresas negociadas em bolsa estão baratas;
  2. as empresas estão com seus caixas reforçados ou
  3. nos níveis atuais de taxa de juros, as companhias não conseguem viabilizar projetos com taxa interna de retorno superior ao custo de capital;

Desconsiderando a atual conjuntura econômica, entendemos que existe espaço significativo para uma valorização do Ibovespa, conforme gráfico do múltiplo P/L vs Ibovespa (Figura 2).

Figura (data-base 30/06/2022) 2
Fonte: Economatica e Infinity Asset

Esse entendimento é decorrente de dois pontos:

  1. Evolução do múltiplo P/L: ao avaliamos os fundos formados nos pontos 1, 2, 3 e 4, em destaque, percebemos que a formação desses fundos é acompanhada pela desvalorização da bolsa. Considerando a relação preço-lucro é possível entender que nesses movimentos não houve variações expressivas dos lucros e o múltiplo acabou refletindo o movimento de desvalorização da bolsa. Contudo, esse movimento não foi observado na formação do fundo no ponto 5. É possível identificar que enquanto o múltiplo P/L apresentava uma trajetória descendente, o Ibovespa apresentava um movimento de valorização/estabilização e assim, podemos entender que o múltiplo não foi impactado pelo movimento do Ibovespa, e sim pelo crescimento expressivo dos lucros das empresas nesse período.
  2. Reversão à média: princípio estatístico frequentemente utilizado na área de investimentos, que estima que os valores de uma série histórica de dados tendem a reverter a sua média. Esse movimento pode ser claramente observado na figura acima que, após a formação dos fundos destacados, houve um movimento ascendente do múltiplo nos meses seguintes em direção à média histórica. Esses movimentos, ganham mais força quando ocorrem na região do segundo desvio padrão da série histórica.

O que esperar

Nossa convicção é que a bolsa apresenta espaço para crescimento. Entendemos que no curto prazo, as empresas que compõem o Ibovespa não apresentarão uma queda expressiva de seus lucros. Consequentemente, se não ocorre variação no lucro das empresas, a forma de ocorrer uma reversão à média do múltiplo P/L é por meio da valorização do índice, trazendo o indicador para a média.

Quando adicionamos a discussão do cenário econômico, identificamos pontos que reforçam nossa perspectiva de retomada do Ibovespa, ou no mínimo reforçam a margem de segurança para manutenção dos lucros das companhias:

  1. A paralisação da China devido a política de COVID-0, invasão da Ucrânia pela Rússia, ciclo inflacionário generalizado fazendo com que o mundo entrasse em uma corrida por produtos essenciais, basicamente as commodities.
  2. A bolsa brasileira foi privilegiada nesse início de ano com esse ciclo, considerando que a carteira teórica no índice possui aproximadamente 40% em empresas de commodities. Acreditávamos que esse movimento já estava perto de seu fim, mas eventos recentes têm reforçado essa tese.

Conclusão

Considerando tudo o que foi exposto, reafirmamos nossa visão de que a bolsa está barata e que a sua tendência é de valorização. Entendemos estarmos diante de um dos melhores momentos de entrada da bolsa dos últimos anos, porém, é necessário ter em mente que o cenário econômico traz inúmeros desafios, e que o horizonte de investimentos de longo prazo é essencial para capturar ganhos em bolsa e devemos enxergar os momentos de maior volatilidade como oportunidades.

Consulte o estudo completo.

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